Canção de desajuste: o corpo e o espaço na poesia de Francielly Baliana

Em Um já que jaz, de Francielly Baliana, assistimos a um eu procurando se construir como identidade em sua tensão com a existência do outro. Tal identidade procura se firmar com base em três elementos: o corpo, o espaço e a linguagem. Neste prefácio, pretendo me fixar apenas nos dois primeiros.

Como se sabe, o corpo é a zona de interseção entre o mundo interior e o exterior. Nos poemas de Baliana, o eu procura se entender como corpo, como instância na qual é elaborada a experiência dos limites do próprio eu. Não por acaso, alguns poemas tratam das extremidades corporais, as mãos e os pés, com as quais o indivíduo pode explorar e se apossar da realidade, querendo se integrar a ela e, ao mesmo tempo, reconhecendo sua irredutível alteridade. No poema “solo”:

avancei sete passos.
mas não sabia em que terreno pisava.
avancei,
e os olhos fechados me permitiam arriscar
no espaço em que meus pés aconteciam.
eu estava descalça
e me sentia parte daqueles pedaços
frios de terra.

Já no poema “menos dez”:

meus pés abertos sentem o chão
e é tão frio sentir o piso
que flui
que agenda o próximo passo
de um dia de domingo.
que jeito há pra me dizer
que é só chão,
que é só piso,
que o que piso
é frio adentro?

E em “domingo”:

eu sinto que sei
(…)
ser um amor
que anda
descalço,
que não para e espera o chão quente calejar,
(…)

Finalmente, em “casco”:

às vezes gosto dos meus pés
olho com olhos distantes
e sinto que gosto
da forma como rompem o ar
soltos, sujos, ásperos
gosto da sinceridade
com que pisam o chão
em canção de desajuste
com o peso de um corpo estranho
e dolorido

Percebemos, na última passagem citada, uma sensação de alheamento da subjetividade em relação ao corpo (“o peso de um corpo estranho”), na qual os pés, entregues à experiência tátil, parecem antes uma parte do mundo do que do eu, tanto que são contemplados com “olhos distantes”. A visão, assim, contrapõe-se ao tato, na medida em que permite uma relação menos imediata com a realidade, abrindo espaço para que o eu se perceba como entidade autônoma, apartada do mundo por seu poder de refletir sobre as coisas. Alguns versos depois:

meus pés que lutam com os mesmos dedos
pelo chão harmônico
ou o piso frio
que aconchega a tristeza entendida de dentro

No fim das contas, os pés — metonímia do corpo e da experiência sensível — lutam para equilibrar a dimensão interior do sujeito (“a tristeza entendida de dentro”) com o “chão harmônico”, o mundo exterior, impermeável aos sentimentos e aos conflitos humanos. Mas as mãos também têm seu lugar na poesia de Baliana. Em “garras”:

uma vez me disseram que eu não sabia usar a
………………………………………[ponta dos dedos
me disseram que eu tocava o mundo com a
……………………………………….[palma das mãos
que essas partes estranhamente inteiriças
…………………………[não sabiam abrir os livros
ou colher erva-doce no quintal

O uso das palmas das mãos — o pegar — representa uma interação direta com o real, ao passo que as pontas dos dedos — o tocar — significam, ao mesmo tempo, contato e distanciamento, uma experiência do eu com o mundo mediada pelos valores civilizacionais, incluindo desde os códigos da etiqueta, que prescrevem a disciplina do corpo, até os protocolos da cultura letrada. Ao contrário disso, o eu lírico prefere estabelecer uma relação mais natural e espontânea com os seres:

só se esqueceram de dizer que as flores também têm cheiro
e que os livros, os bons livros, carregam a rigidez
em conteúdo
e em forma
e que portanto estão sempre à espera de mãos ásperas
como as minhas
como eu

Em “garras”, entra em jogo uma identificação do eu com as mãos, em oposição ao que acontece em “casco”, em que os pés são observados com distanciamento. É que essa subjetividade busca se constituir no atrito com a alteridade, alternando interiormente impulsos centrípetos e centrífugos, às vezes olhando o mundo exterior, às vezes pegando-o, outras vezes o tocando. De qualquer maneira, os títulos dos dois poemas remetem o corpo e suas extremidades ao âmbito da animalidade, vinculando-o a um eu que tensiona os limites entre natureza e civilização.

Outro aspecto importante da vivência da subjetividade como corpo em Um já que jaz é o movimento de identificação do eu com a condição feminina, categoria igualmente limítrofe entre a natureza (as circunstâncias fisiológicas da fêmea) e a cultura (os papéis de gênero social e historicamente estabelecidos), como vemos em “helena”:

helena era o que pensava ser
enquanto biodinâmica.
nasceu pra ser natureza.
mas,
enquanto secava seu corpo com as mãos,
sentiu-se amélia.
ou leonardo.
não sabia bem.

Agora, retomando “casco”:

acho que meus pés
são engenho
e força de trabalho
de uma nova idade média
onde o mestre de ofício
é uma pisada
inesperada
de mulher.

Ser mulher, numa modernidade assentada sobre os fundamentos de civilizações patriarcais (gregos, romanos, hebreus e cristãos), aparenta qualquer coisa de deslocado, de anacrônico ou mesmo de arcaico. Trata-se de uma “pisada inesperada de mulher”, que canta uma “canção de desajuste” (alguns versos acima), como se, na condição feminina, houvesse uma gama de virtualidades que apontam além dos limites históricos da civilização burguesa. No poema “o capital”, vemos Karl Marx tecendo “letra e desajuste”, aquecido por um casaco penhorado. O desajuste, portanto, é um sentimento de inadequação às circunstâncias nas quais se está inserido e representa uma energia potencialmente transformadora. Tal desajuste pode ser tanto existencial — na relação da subjetividade com sua dimensão objetiva de corpo —, quanto social e político. O processo da subjetividade que vai se elaborando como mulher é explicitado em “uma poesia”:

hoje nasci mulher,
frequentei meus próprios seios,
de mim mesma fiz retrato,
(…)

É justamente essa identificação da subjetividade com a condição feminina que permite ao eu desdobrar-se na perspectiva de outras mulheres, como nos poemas “ana”, “joana” e “helena”, que apresentam personagens reféns dos papéis estabelecidos para seu gênero. Temos, então, uma transposição do corpo como instância simbólica sobre o qual se depositam valores e significados (relacionados à questão da feminilidade) para o corpo como entidade política, adentrando o debate do lugar da mulher na sociedade contemporânea.

Em “linha amarela”, aprofunda-se a abordagem da dimensão política do corpo, mas não mais sob a perspectiva das relações de gênero. O que temos é o corpo coletivo da multidão, comprimido no transporte público e constrangido na rotina exaustiva de sua exploração como força de trabalho:

multidão
e seus respiros políticos
a desbravar nossos espaços
em comum.
no meio da gente, mais
gente.

O eu, entretanto, não se deixa absorver completamente nesse “nós” massificado:

dentro de mim,
espasmos, alívios,
gerência de suspiros.

Abertas as portas do metrô, a multidão segue automaticamente seu percurso — ditado pelo movimento mecânico da escada rolante —, destituída de qualquer inclinação individual. Neste caso, o corpo é a materialização de uma subjetividade submetida às engrenagens do sistema produtivo e seus mecanismos de organização do espaço e da sociedade. Desenvolve-se a ideia do espaço como opressão, como sufocamento das aspirações pessoais, o que parece representar, em outro nível de leitura, um horizonte de expectativas vedado à utopia, ao sonho de uma transformação qualitativa da vida social, o que desvela, por trás da agitação frenética do cotidiano, um princípio de paralisia, de reprodução invariável das mesmas práticas e instituições:

o que era gente
a ocupar e se enfileirar
e se indignar
e a gritar em silêncio
por um espaço sem nome
tornou-se escada
rolante,
a passos parados
tentando furar a dimensão.
quem é que se movia,
agora?
na escada, ninguém.

Chegamos, aqui, ao segundo tópico desta leitura: a tentativa da subjetividade de se estender ao espaço, isto é, na tentativa de transformar a relação do eu com o mundo, em sua dimensão mais propriamente material, numa experiência subjetivamente significativa. No poema “quarteirão”, vemos o eu lírico, salvaguardado pela distância entre o apartamento e a rua, observando corpos indiferenciados, entregues à sanha do dia a dia:

daqui de cima eu vejo a rua tornar-se
…………………………………………………..[avenida.
daqui, desse décimo quarto andar,
eu vejo os corpos cruzarem a viela
uma, duas, quantas vezes
forem necessárias.
vejo-os confundirem-se
entre travessas e praças.

A ruptura entre o espaço privado, subjetivamente significativo, e o espaço impessoal e despersonalizante da rua, onde os corpos se congregam em massa anônima, está implícito em “semana”:

eu sempre ia embora na segunda pela manhã.
eu via sempre os mesmos carros
[atravessarem uma avenida que ainda não sei
…………………………………………………..[o nome.
eu não sabia viver aquele resto de dia.
eu não sabia que era possível amar na noite
…………………..[que se transformava em terça.
eu via os carros
aqueles carros que não enfrentavam um sinal
………………………………………………..[vermelho
e me perguntava por que minha segunda era
………………………………….[um freio constante,
(…)

O espaço doméstico, relacionado à experiência amorosa, é qualitativamente distinto do da rua, marcado pela invariabilidade (“sempre os mesmos carros”) e pela falta de referências para o eu lírico (“uma avenida que ainda não sei o nome”). A casa, em Um já que jaz, é sempre um ponto trespassado de reminiscências e afetos: trama de experiências que ajudam o eu a se constituir como consciência que se perpetua no tempo, mesmo na indefinição de um poema como “mudança”, no qual, por trás do não lembrado, revelam-se tensões que atravessam os relacionamentos familiares e o modo como estes se imbricam no local habitado. Em “apto 101”, os dois primeiros versos demonstram a capacidade dos afetos de ressignificarem o espaço: “alugar é devaneio/ se o amor é casa aberta”, ou seja: na medida em que o espaço é a materialização de uma teia de afetos, qualquer tentativa de reduzi-lo à sua concretude é ilusória.

Uma das coisas que diferem o espaço privado do espaço da rua é sua relação com o tempo. Embora haja, na poesia de Baliana, um desejo de que o cotidiano se estabilize em rotina, dotando a existência de uma dimensão íntima, na qual o eu consiga se reconhecer — como em “wild” e “instâncias da solidão” —, o tempo que rege essa rotina, ao contrário do que acontece na rua, não é o tempo mecânico e homogêneo do capital, mas o da dinâmica neurótica dos afetos. A rotina doméstica deveria ser uma sucessão de vivências significativas, com base nas quais o tempo, ou sua percepção pelo sujeito, dilata-se em vez de se estender linearmente; algo mais próximo da circularidade mítica do que da progressão cronológica. Nesse sentido, tempo e espaço se integram de maneiras inesperadas, criando uma zona fronteiriça por meio da qual o eu toma consciência de si em seu contato com as diversas formas de alteridade. Por exemplo, em “dia do fico”:

era preciso todo o espaço
pra caber essa vastidão do tempo
que escorria de dentro de mim.
(…)
era uma coisa de unicidade,
era o fim,
o fio dos tempos
se juntando e se dizendo
que na fagulha sideral
permaneceríamos,
que haveria um pouco mais de tempo
e de espaço
pra esse nó(s),
(…)

Há, portanto, em Um já que jaz, um desejo de permanência, de estabilização, que se manifesta não apenas como a busca de uma subjetividade em definir seus próprios contornos, mas também como desejo de ancoragem num espaço intimamente ressignificado. Porém, o desejo de estabilidade já é o indício de uma percepção da fluidez da existência e do próprio eu, assim como dos significados impressos pela experiência, tal como vemos em “solo”:

me sentia puxada,
tensionada a ficar,
a estabelecer morada.
mas meu sangue, o sangue quente,
me empurrava mais uns centímetros.
cada pisada,
e um horizonte sem cor a se formar em mim.
era como se minha mente escrevesse
sem pretensão.
e meu corpo se deixasse levar pelas gêneses
de um sentido em êxodo.
quando não há imagens,
os braços se retraem,
mas os sentidos não se limitam.

Assim entendemos que, ao lado de poemas que tratam do cotidiano doméstico, haja outros que representam situações de trânsito, de passagem: “agro/negócio”, “terminal 18”, “mire e veja”, “linha amarela”, “desca(n)so” etc.

Ao longo dos poemas de Um já que jaz, acompanhamos a jornada de uma subjetividade à procura de se constituir refletindo sobre e vivenciando seus limites, em fricção com tudo aquilo que seja o outro: a realidade empírica, a vida social, o ser amado, o tempo e o espaço. Sintoma de uma modernidade caracterizada por um capitalismo que se reinventa constantemente para se manter sempre o mesmo, erodindo com isso as formas sociais estabelecidas, mas sem nunca resolver suas contradições estruturais. Tanto que, por trás da tentativa de se criar um vínculo afetivo com o lar em contraste com certo espírito nômade, não é exagero enxergar uma resposta do indivíduo à precariedade de sua relação com o espaço urbano num contexto de intensa especulação imobiliária. Por outro lado, compactuar com as formas do passado seria simplesmente reafirmar as contradições e desigualdades do sistema, com suas inúmeras formas de opressão atualizadas. Portanto, resta ao eu construir-se num processo contínuo e periclitante, sem dispor de referências sólidas, numa canção de desajuste que nunca cessa.