Dois sonetos culinários: Antonio Carlos Secchin e Wladimir Saldanha

SONETO AO MOLHO INGLÊS

Para Cony, que deu a mim o verso I

Mãe, eu quero comer um bife à milanesa,
é tudo que lhe pede o filho mais ingrato,
e ainda que delícias brilhem em meio à mesa
eu nada além desejo dentro do meu prato.
Um simples bife de patinho, ou chã alcatra,
para este filho mal passado; eu pretendia
passar a limpo o amor que sai pela culatra,
e sem cessar me escapa nesta casa fria.
Agora é tarde, e nada abala a fortaleza
da dura sala hereditária em que deponho
minha esperança, misturada na tristeza
de nunca ter sabido o que é o sabor de um sonho.
Não, mãe, te afirmo então, na insônia da certeza:
não quero um bife, quero o amor de sobremesa.

ANTONIO CARLOS SECCHIN. In: Desdizer (2017)

* * *

O POLVO (à moda inglesa)

Para mim, foste flor, na caçarola,
e o teu desabrochar foi um fechar-se
de pétalas-tentáculos, corola
roxa ou cor-de-rosa, mas sem haste.
Se nunca um vi centrípeto, nem forte;
se sempre descartei as tais ventosas
no prato, como quem descarta rosas
do amor fanado, polvo, solto à sorte!
“Cefalópode”, “octópode”, “molusco”
— estranho esse vocabulário brusco,
a tinta negra que te faz a verve…
Para mim, foste flor. E enquanto ferve
. . . . . . .a flor que se contrai na primavera,
. . . . . . .o polvo que há na flor envolve a fera.

WLADIMIR SALDANHA. In: Lume cardume chama (2013)